E-Book Original: “O SUSPENSE DO AMOR” cap. 4

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4. Novos rumos

O dia posterior estava sendo muito dolorido para Irene, a aposentada do funcionalismo público e sem parentes próximos. Ela descobriu na caridade e distribuição de sopa sua forma de viver. O amor ao próximo era muito forte para ela, vinha da sua criação familiar, sendo por isso que a perca – da única foto dos pais e o bilhete de sua avó – a deixou tão abalada. Irene nasceu em Niterói, no ano de 1914, cidade vizinha do Rio de Janeiro, se mudou muito criança para a capital, mas sua avó materna á qual era tão ligada continuou na cidade que existe depois da ponte. Irene durante todas as férias de sua infância e adolescência passava na casa de sua avó, então ela pegava a balsa para atravessar a Baía de Guanabara, nessa época ainda não havia sido construída a Ponte Rio-Niterói que seria inaugurada somente no atual ano desta fase da história, 1974. Visitar a avó sempre foi uma alegria enorme, quando não atravessava pela balsa, Irene se deslocava pela estrada que liga o Rio á Niterói passando pela cidade de Magé, o que custava uns 100 quilômetros. A ligação familiar sempre foi muito forte no coração dela e ela aprendeu muito com seus ancestrais sobre caridade e todas as virtudes que possam ser tratadas neste momento. Muita religiosa, a avó de Irene fez questão de deixar por escrito uma carta de despedida com a oração ensinada por Jesus Cristo, e entregou para a neta quando aproximova sua morte. A última vez que Irene fora até Niterói foi essa vez, onde ela recebeu a notícia que a avó estava muito doente e prestes a falecer, a neta foi e se despediu, recebendo o bilhete do Pai-Nosso de sua avó. Depois disso, ela nunca mais voltara a sua cidade natal. Tendo se estabelecido no Rio de Janeiro, Irene logo passou a trabalhar na sede do governo municipal, na época a cidade do Rio de Janeiro era ainda a capital do Brasil, o Rio deixou de ser a capital federal somente em 1960 por obra do presidente Juscelino Kubitschek, quando ele transferiu a sede da União para o Distrito Federal do Planalto Central em Goiás. Irene assistiu todas essas mudanças nacionais de perto, mas continuou trabalhando por muito tempo para o município, lidou com a morte dos pais, primeiro foi sua mãe, depois seu pai que partiu desse plano, como filha única herdou todos os bens deixados, o que não era muita coisa, ela apenas usou todo o dinheiro da herança para comorar uma casa melhor no bairro do Méier, onde mora até hoje. Irene sente muita saudade dos pais e da avó materna, porque foi muito ligada a eles. Mas Irene nunca quis se casar, o tempo passou e ela se dedicou mais a cuidar dos pais e do trabalho público. Ao aposentar foi aclamada por todos os colegas de trabalho com quem conviveu em gratidão a sua enorme generosidade.

Irene conseguiu despertar uma paixao não correspondida no vizinho Dino, sim ele a ama muito, e na condição de viúvo não se restringe em galanteá-la, mas sempre com muito respeito. Irene carrega uma grande historia de vida nos seus sessenta anos, e há um ano atrás, tinha tomado alguns novos rumos, porque assim estaria realizando seu sonho em ajudar os moradores de rua que sofrem com a falta de ajuda do governo municipal, estadual e federal que é nessa época dominado pela forte Ditadura de Extrema-Direita e originada do golpe militar de 1964. Mas diante de todas limitações, Irene não se deixa tolher e vai para a linha de frente ajudar quem precisa, se esforçando para alimentar os moradores de rua, e sua ação foi chegar aos ouvidos do grande Clube de Caridade do Rio de Janeiro.

E neste exato domingo, a presidente do Clube, Verinha junto com sua prima Lúcia que também é associada, estão na casa de Irene, porque o interesse em ter Irene como parte do Clube é altíssimo. Irene caiu nas graças dos cariocas que vivem na miséria e fome, devido a sua ótima e tradicional sopa beneficente. A par de toda repercussão, Verinha e Lúcia, não esperavam ter que sair tão desapontadas da casa de Irene após ela recusar a proposta.

– Eu faço questão de deixar expresso o meu apreço pelo convite para me tornar associada a um Clube de Caridade tão renomado, eu vejo bondade nos olhos das duas primas, vejo o propósito que é ajudar o próximo. Não vou esconder que tenho um pézinho atrás, pois vejam bem a minha posição, sou de uma classe bem mais baixa na estrutura da sociedade e a posição das duas e demais associados está muito acima. Maz com todos os poucos recursos que disponho faço da minha pobreza alimento para quem passa fome. Respondeu mais uma vez, Irene para as primas devido a grande insistência, principalmente de Verinha, pois Lúcia começou a ficar mais resignada vendo todo o desgosto de Irene pelo fato ocorrido no dia anterior.

– Por um minuto eu cheguei a imaginar que a senhora tinha olhado, bom, como vou explicar? Por um minuto pensei que a senhora tinha olhado pra nós duas e pensado que estávamos apenas querendo nos exaltar diante da senhora, os Clubes de Caridade tem uma missão, mas às vezes é julgado pela parcela da população que não faz nada pra mudar a situação, e nos nomeia como pessoas elitistas por demais. Verinha tinha um tom mais elitista sim e sabia quem era, pois cada um conhece sua personalidade. Mas não queria passar essa visão para Irene, e tinha o receio de que ela recusasse a proposta por se sentir inferior. E Lúcia que ficou a maior parte do tempo calada, resolvera se expressar.

– Irene, tanto eu como minha prima Verinha entendemos muito o que aconteceu com você. Solidarizamos muito com sua perca, eu posso imaginar o valor afetivo dos objetos perdidos, os traumas psicológicos e físicos. Não podemos negar nenhum fato e nem você pode negar a dor da sua perda. Quero também deixar a lição que esse Clube tem feito em minha vida, certamente a senhora deve conhecer a grande empresa de cosméticos, Montenegro, sim ela é minha, herdei de meu pai e também sou filha única, mas meu pai deixou toda a administração da empresa nas mãos do meu marido, Régis, ás vezes tudo o que mais quero é me separar dele, mas lembro da nossa filha Drica e coloco ela na frente, pensando que uma separação não é ideal no presente, ele demonstra ser um homem desonesto, mas infelizmente ainda é meu marido. Passo por humilhações vindas dele, mas encontrei refúgio no Clube de Caridade e agora eu ofereço esse mesmo refúgio para você Irene, você nunca esteve sozinha, Deus sempre esteve com você, e agora eu e Verinha também estaremos. Não vamos abandonar as pessoas carentes que dependem da nossa atitude para ter um alimento. Você é uma guerreira e vai superar esse roubo, sairá mais forte e agora você tem a nossa amizade. Irene você já é muito famosa pela boa ação, junto com o nosso Clube vamos fazer uma diferenca muito maior nessa cidade. Por favor aceite nossa proposta. A fala de Lúcia mexeu muito com Irene, ela não conteve as lágrimas mais uma vez, mas agora ela precisaria responder mais novamente se aceita ou não continuar com os trabalhos de caridade, dessa vez dentro do Clube. A dor do roubo é fortíssima, mas as primas Lúcia e Verinha são insistentes e parecem não aceitar uma recusa de Irene.

Enquanto isso do outro lado do Rio, ainda na praia de Copacabana, deitado na areia está Duda bastante angustiado, maltratado mais uma vez pela fome, guarda todos os pertences de Irene incluindo sua parte do roubo, com a foto e a oração encontradas depois perdidas e levadas pelo vento. E decidido a não gastar nenhum centavo daquele dinheiro com comida, foi revirar caçambas de lixo para procurar comida e viver mais um dia naquela rotina de morador de rua. Demoraria ainda uma semana para devolver tudo á Irene, e mais uma vez, vinha uma reflexão sobre seus pensamentos. Será que ele aguentaria sentir a dor da fome e não usar um tostão sequer do dinheiro roubado até se encontrar com Irene, de uma coisa ele tinha certeza, que irá enfrentar tudo e todos no dia da devolução dos bens roubados.

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Sobre o Autor Matheus Henri

Goianiense, 25 anos. “Podemos conversar sobre os assuntos mais quentes do momento, ou talvez seja melhor sobre os nossos sentimentos, pois compartilhados se tornam desabafos e pura liberdade. Sou escritor de contos de ficção e de citações sobre o pensamento e comportamento humano desde a infância, atualmente estudo Interpretação Teatral no Instituto Tecnológico de Goiás em Artes Basileu França. Sou Bacharel em Direito pela Universidade Salgado de Oliveira Campus Goiânia 2019/2.”

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