E-Book Original: “O SUSPENSE DO AMOR” cap. 3

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3. A crise de Duda

Os momentos que se seguem neste capítulo descrevem os intensos conflitos pessoais que vieram à tona ao pensamento de Duda sobre o roubo cometido por ele e Jamil.

O sol já havia se posto naquele sábado, e o que iluminava a praia de Copacabana onde estava Duda eram o brilho da lua, das estrelas e alguns postes de luz próximos ao calçadão. Duda estava em pânico, nunca se sentira daquela forma, ele já não pensava mais em comprar comida com o dinheiro roubado, agora ele só conseguia pensar em recuperar os objetos inestimáveis que dona Irene implorou para não serem levados por ele e o amigo, e assim devolvê-los. Duda percorreu um grande espaço na praia e pensava aonde o vento poderia ter levado aquela foto e a oração, mas de repente ele parou de procurar. Isso porque outro pensamento foi mais forte, ali ele teve que conversar consigo mesmo e refletir.

O que eu estou fazendo? Eu não posso voltar a me encontrar com a dona Irene, mesmo que seja pra devolver o dinheiro, a foto e a oração, ela vai chamar a polícia, o Conselho Tutelar, eu serei preso, e pior que isso será quando os outros moradores de rua que tanto amam ela, vierem acabar comigo, já posso imaginar levando uma surra de todos. Duda por um momento desiste de procurar a foto e a oração, e de devolver sua parte do roubo para Irene, por medo da retaliação que poderá sofrer de todos, ele começa a chorar muito porque sua imaginação só o faz pensar nas pancadas que levará de todos os outros mendigos que amam Irene, caso ele reapareça para devolver o que roubou, ele já pensa no sangue escorrendo do seu corpo.

Sangue é o que rodeia a mente de Duda nesse momento. Duda sempre morou na rua, a sua memória mais antiga é de estar enfrentando uma chuva e tentando se esconder debaixo de um viaduto, nesta época Duda deveria ter uns quatro anos de idade e já era garoto de rua, ele nunca conheceu os pais e nunca teve família, foi abandonado antes que pudesse criar qualquer vínculo com seus pais biológicos. É nesta sua memória mais antiga que Duda lembra do vermelho cor de sangue que escorreu de seu corpo, pois durante a tempestade e se escondendo debaixo de um viaduto da cidade do Rio de Janeiro, Duda apanhou muito de outros moradores de rua que já habitavam no local e que não queria que fosse dividido com mais ninguém.

Duda pensa ter em média catorze anos de idade, durante esses dez anos de memórias da vida na rua, ele tem mais momentos ruins do que bons para recordar, sempre sofreu com a fome, a miséria e a rejeição de todos. Ele se lembra do dia em que conheceu o amigo Jamil, ele estava brincando com uma bola velha encontrada no lixo e o convidou para brincarem juntos, a partir dali nasceria uma amizade entre eles. Mas Duda sempre teve o cuidado para não entrar no mundo das drogas e do tráfico, já Jamil foi pelo caminho oposto e se viciou em várias drogas, inclusive com sua parte do roubo, Jamil tinha o compromisso de pagar uma dívida com um traficante.

O que motivou Duda a roubar Irene juntamente com o amigo Jamil foi o fato de sentir fome e sofrer com a dor do estômago vazio todos os dias de sua vida, sempre ter que ir dormir com a barriga mal-tratada o fazia desacreditar de tudo e não ter fé em algo. Duda e Jamil descobriram a sopa de Irene que ela distribuía para os moradores de uma região perto de onde costumavam ficar, e assim por alguns sábados eles iam ao encontro dela para se alimentarem. Jamil foi quem teve a ideia e Duda seguiu seu conselho de roubarem dona Irene. Jamil não é mais e nem menos culpado do que Duda neste roubo, todos tem sua parcela de culpa, mas talvez o vício tenha deixado Jamil menos sensível ao arrependimento. Já para Duda o arrependimento bateu á porta de sua mente no mesmo dia. E quando ele havia parado de procurar os pertences de Irene na praia escura com medo das retaliações que viria a sofrer, ele pensou diferente e foi mais forte que o seu medo.

– Mesmo que eu seja pego pelo Conselho Tutelar, mesmo que seja levado preso para alguma casa de correção, e até mesmo que eu apanhe muito dos moradores de rua que são alimentados pela dona Irene, eu vou enfrentar de cabeça erguida o julgamento de todos! A minha felicidade custou a infelicidade da dela, eu vi o seu sofrimento pela perda da foto e da oração, o sangue escorrendo de seus joelhos e por isso eu vou continuar procurando, mesmo que leve muito tempo, eu vou achar a foto dos pais dela e a oração escrita pela avó dela e irei devolver junto com a minha parte do roubo enfrentando a todos no próximo sábado quando ela for distribuir a sopa.

Duda não sabia nenhum pouco da incerteza que Irene sentia dentro de si sobre continuar distribuindo a comida aos favelados, ela havia sido proibida pelos próprios mendigos e seu amigo Dino de continuar com a distribuição de sopa para a comunidade. Irene queria ser forte diante da situação e não seguir o conselho que a fazia desistir, mas o trauma causado pelo susto do roubo a fazia pensar sim em desistir, ela via as marcas dos cortes em seus joelhos e o que mais doía era sua alma, por não poder mais olhar a foto de seus pais e o bilhete escrito pela avó com a oração do Pai-Nosso. Mas Irene logo seria surpreendida por Verinha, a presidente do Clube de Caridade e sua prima Lúcia que também fazia parte da associação beneficente com a proposta que ela se juntasse a elas para que mais pessoas necessitadas fossem alcançadas e assim alimentadas.

A noite já havia passado, era domingo de manhã, Irene não quisera nem tomar seu café-da-manhã, se sentia muito mal com o ocorrido no dia anterior. De repente Verinha e Lúcia bateram na porta de sua casa e se apresentaram como líderes da causa beneficente do grande Clube de Caridade do Rio de Janeiro, Irene ouviu tudo o que elas tiveram pra dizer, a ótima proposta e o quanto aquilo seria bom para todos os lados. Mas o que Verinha e Lúcia ouviram de Irene foi o contrário do que esperavam.

– Eu não vou mais distribuir sopa para os moradores de rua, estou traumatizada com o susto que levei ontem por parte de dois mendigos e me sinto insegura até mesmo para sair de casa, eles levaram meus preciosos bens de família. Servir os moradores de rua é a minha única paixão, mas eu não consigo mais fazer isso. Eu entendi muito bem a proposta de vocês duas e agradeço pelo convite, mas a minha resposta é não! Concluiu Irene emocionada, tudo o mais que ela dissera, deixou Verinha e Lúcia paralisadas por um momento.

Enquanto dona Irene recusava a proposta de Verinha e Lúcia, Duda havia passado a madrugada e o início da manhã inteira procurando os objetos levados pelo vento, até que conseguiu achá-los, eles foram carregados por quase um quilômetro de onde os dois garotos abriram a bolsa. Agora Duda por mais que estivesse com medo de enfrentar todos, ele não iria desistir de devolver o que roubou, sua missão era reencontrar dona Irene e pedir perdão.

Continua no cap. 4

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Sobre o Autor Matheus Henri

Goianiense, 25 anos. “Podemos conversar sobre os assuntos mais quentes do momento, ou talvez seja melhor sobre os nossos sentimentos, pois compartilhados se tornam desabafos e pura liberdade. Sou escritor de contos de ficção e de citações sobre o pensamento e comportamento humano desde a infância, atualmente estudo Interpretação Teatral no Instituto Tecnológico de Goiás em Artes Basileu França. Sou Bacharel em Direito pela Universidade Salgado de Oliveira Campus Goiânia 2019/2.”

Encontre o autor Matheus Henri em:
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