E-Book Original: “O SUSPENSE DO AMOR” cap. 1

1. O roubo da foto e da oração

1974. Rio de Janeiro. A desigualdade social é a causa de graves problemas no mundo como a fome, a pobreza, o desemprego e a rejeição. Irene, uma senhora recém aposentada da Prefeitura do Rio de Janeiro, tem lutado sozinha para alimentar uma comunidade de mendigos na entrada de uma favela carioca. O pouco que ganha de sua renda, ela divide com os mais pobres e isso faz muito bem a ela, pois é mais do que uma simples ação caridosa, os mendigos – aos quais ela alimenta todos os finais de semana com sua tradicional sopa – já se tornaram como parte de sua família. Irene nunca casou, nunca teve filhos, é filha única e seus pais já morreram há bastante tempo, ela vive sozinha em sua casa num bairro periférico, dedicou boa parte da sua vida ao funcionalismo público atuando como agente de serviços gerais do município do Rio de Janeiro. A vaidade nunca foi o forte de Irene, mas além da beleza interior, ela carrega belos traços em sua fisionomia e com seus cabelos não tingidos, que continuam brancos trazidos pelos sessenta anos de idade ainda tem seus pretendentes, entre eles o seu vizinho Dino, que é quem ajuda Irene no carregamento e distribuição de alimentos aos favelados. Mas sempre que pode Irene deixa bem claro que não quer se relacionar amorosamente com ninguém, mesmo que isso parta o coração do amigo que não mede esforços para ajudá-la.

Meio-dia de um sábado ensolarado de abril, outono no hemisfério sul e é momento de tomar a sopa feita por Irene. Neste exato dia está completando um ano que ela começou o movimento e antes da distribuição de comida ela tem algumas palavras para dizer.

– Meus amigos e amigas, irmãos e irmãs, vocês já vão poder se alimentar, mas gostaria de agradecer a todos, sim eu sou muito grata, primeiramente a Deus que me dá forças e saúde para continuar essa ação, e também a vocês que me inspiram a dividir o pouco que tenho e portanto o milagre da multiplicação acontece quando vejo todos satisfeitos e bem alimentados. Eu sei que é dificil ser maltratado pela fome diariamente, e choro quando penso que posso serví-los apenas aos sábados, mas creio também que o melhor está por vir e que nunca seremos desamparados.

Enquanto Irene discursa emocionada em comemoração ao primeiro ano de sua ação beneficente em favor daquela comunidade de mendigos, dois garotos de rua planejam assaltá-la, são eles Jamil e Duda.

– Duda você tem que ser ligeiro, eu vou fazer a minha parte e você você faz a sua! Entendeu a nossa jogada? Pergunta Jamil nervoso para seu comparsa Duda.

– Tô tranquilo Jamil, vai dar tudo certo. Eu distraio a velha enquanto ela serve a sopa pra mim e você pega a bolsa dela. Responde Duda tentando passar tranquilidade, mas no seu íntimo, ele tem medo que o plano dos dois possa dar errado e os outros moradores de rua queiram linchá-los.

– Eu não tô sentindo firmeza em você cara. É o seguinte, fica com esse canivete e eu vou ficar com esse revólver, se alguem reagir nós ameaçamos, até dar tempo de fugirmos. Afirma Jamil para Duda, tentando passar confiança para ele.

E assim após o seu discurso Irene começa a distribuir sopa para os moradores de rua, quando é a vez de Duda pegar seu prato de comida ele chama a atenção de Irene.

– A senhora tem sido muito boa com a gente. A sopa da senhora é a melhor que já comi na vida…  Antes que Duda continue a conversa e Irene possa agradecer o elogio, Jamil pega a bolsa de Irene e Duda derruba seu prato no chão com o intuito de correr, mas Irene segura o braço de Duda e pergunta eufórica.

– O que vocês tramaram contra mim? Diz Irene abalada, enquanto Jamil grita para Duda usar o canivete e fugir. Então Duda saca o canivete do bolso e passa o braço armado no pescoço de Irene, ela começa a chorar desesperadamente. Nesse momento os moradores de rua já cercam Jamil para que ele não fuja e gritam palavras de ameaça de morte por terem feito isso. Jamil não vê outra alternativa a não ser sacar o revólver e apontar para os moradores.

– Ninguém se mexe, eu e o meu parceiro Duda vamos sair daqui e levar a bolsa da velha que vocês tanto amam, essa bolsa deve valer muito dinheiro e ainda ter mais dentro dela. Se alguém impedir o nosso roubo, eu Jamil disparo a arma contra vocês e o Duda corta o pescoço da velha.  Jamil faz todas as ameaças que pode na tentativa de fugir com Duda ilesos. Enquanto isso Irene faz um apelo.

– Eu peço que vocês fujam com a bolsa, e meus amigos não tentem nada contra esses garotos, eu temo pela vida de vocês. Levem a bolsa garotos, ela é cara, vale dinheiro, dentro da bolsa tem mais dinheiro, mas eu não estou preocupada com o dinheiro, só não levem a única foto que eu tenho dos meus pais e que carrego comigo dentro dessa bolsa e também uma oração do Pai-Nosso escrita a mão pela minha avó, são as únicas lembranças dos meus ancestrais. Duda não deixa a senhora continuar falando, continua com o braço passado no pescoço de Irene, empurra ela até onde está Jamil, os três começam a se afastar da multidão, para fugirem, enquanto o canivete continua á centímetros do pescoço de Irene e o revólver apontado para os favelados que esbravejam querer matar a dupla que está ameaçando não só a eles, mas Irene a mulher que eles consideram sua mãe de coração. Finalmente eles vêem um modo de escapar, Duda tira o braço que está em volta do pescoço de Irene com o canivete e Jamil ainda empurra ela fazendo-a cair de joelhos. Irene se machuca, muito sangue começa escorrer de seus joelhos e os garotos fogem com a bolsa. E ela grita chorando desesperadamente:

– Por favor, deixem a foto e a oração, é tudo que lhes imploro. O único que ainda olha pra trás e vê o sofrimento de Irene é o garoto Duda, mas Jamil promete que ela não verá nem a foto, nem a oração, nem os dois moleques nunca mais em sua vida. Só o semblante de Duda não parece exprimir satisfação e vitória, mas sim piedade por dona Irene.

Clique aqui para ler o cap. 2

Sobre o Autor Matheus Henri


Goianiense, 25 anos. “Podemos conversar sobre os assuntos mais quentes do momento, ou talvez seja melhor sobre os nossos sentimentos, pois compartilhados se tornam desabafos e pura liberdade. Sou escritor de contos de ficção e de citações sobre o pensamento e comportamento humano desde a infância, atualmente estudo Interpretação Teatral no Instituto Tecnológico de Goiás em Artes Basileu França. Sou Bacharel em Direito pela Universidade Salgado de Oliveira Campus Goiânia 2019/2.”


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